As árvores são poemas da terra para o céu. Nós as derrubamos e as transformamos em papel para registrar todo o nosso vazio (Khalil Gibran)



sábado, 16 de julho de 2011

Narciso enquanto viajante

Tornado desgosto
depurei-me
e assumi posturas próprias dos que fogem
pela silenciosa, inconteste e apagada avenida do passado (já sem cor, perdendo os contornos, sendo consumida pelo esquecimento...).

escondido em um canto
tornei-me vértice de espaços.
Inalcançável (mesmo que de fato não fosse)
aos braços da bailarina de gesso
que repousa em pausas
sobre a caixa de música selada e esquecida
sob uma carta nunca lida 
de alguém já sem rosto

Espacializei minha tormenta: gerei um canto!
grito azul para o vento.
Sofreguei a mim 
filtrei minhas angústias
para além da parede oposta que me separa
(ante meus dedos, ante minhas luvas de tocar piano em serenata aberta contra a lua, também já sem rosto)
da imagem do meu reflexo

Consumi as folhas certas da floresta
(que outrora foi deserto, que amanhã será deserto)
pensei compreender a impermanência da direção de meus passos de buscar o sol. 
Acordado a noite forjei um molde do pretensamente-eu,
para poder confrontá-lo ao espelho,
aos meus olhos,
à planície das águas

E no súbito nascer do dia
afoguei-me nessa seta curva
de buscar o âmago de mim

domingo, 10 de abril de 2011

Entre teus ombros
perdido

marcadas em minha pele
tuas digitais
(o espaço vazio entre teus dedos)

o contorno de teu corpo
gravado em meu peito

Decifrar a assinatura
do teu olhar
sobre o meu olhar

frente ao mar,
e embebido nele,
conjugar teu nome no tempo presente

domingo, 20 de março de 2011

Evocação

Há um caminho sem volta
atrás do espelho que conduzem, com apreço e sombra,
teus dedos inumeráveis.
Um rumo no aleatório sabor da manhã.

A transcrição mnemônica dos teus passos impressos na galeria do acaso,
tal veias feitas fios de lã,
como portos secos,
guardados em latas herméticas de impedir o prosseguir do tempo.

No silêncio intenso que teus olhos plenos produzem na minha lembrança,
como abraços desfeitos em braços, em queda,
pronuncio teu nome contra as paredes seladas do meu quarto.
E ainda assim, fecho meu olhos para o teu vulto na escuridão.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

na escuridão, sob o signo do sol

nada
nem uma gota
nem um aroma
nem mesmo sua lembrança

apenas o chão
somente ele sob meus pés cansados
não pelos passos, pela deriva
não pelos medos
pela conjunção destes sobre meu rosto profuso de incoerências injustificáveis
de razões insuficientes
de um passado incompleto como lapsos de memória deixados sobre a penteadeira do tempo

E nem mesmo o chão
somente a sua falta
nada além que a cristalizada lembrança de tudo que nos coordena
ou o esquecimento, que de tudo se alimenta

o eixo pulsante de nossas desautorizações
a mágoa da vida perdida na frente de objetivos desconhecidos,
os motivos perdidos na inércia dos rumos de Coriolis
pelo medo do mar revolto, da incerteza inundável da vida

Os tentáculos perigosos desses monstros marinhos
preservados em receptáculos herméticos
alimentados para que possam, 
sobre a ilusão implacável da eternidade,
tornar-nos nômades de nós mesmos



sábado, 6 de novembro de 2010

não foi o sol,
foi a lembrança, que nos trouxe até aqui

o construto artístico de veias se tornando troncos,
florescendo em mentes,
despetalando-se em memória

alçapões cobrindo o segredo de tantos
o veludo recoberto de veludo

as certezas servido de camuflagem
o discurso pronto, a reflexão automata
concordar pelas conveniências

e a ciência disso tudo tomada com a mão, como a areia fina que um dia foi praia
a água doce que um dia foi rio, por um dia ter sido mar... olhos sonolentos de elefantes
a mágoa de não me tornar o desejo que quiseram que eu tivera, de transformar a areia em vidro
por um dia ter sido praia.



por um dia
eu e a areia,
e a imagem mental que tu hoje processa dessa areia-vidro-praia,
termos dançado [e sido] entre alguns grãos (se é que hajam) da poeira do universo.